segunda-feira, 7 de março de 2011



I Spit On Your Grave (Doce Vingança, no por demais açucarado título nacional) é um filme controverso, ou você adora ou você odeia. Sem meio termo.  Mas uma coisa é definitiva: você tem que ter estômago para conseguir assistir. Não pelas cenas de gore. Eu já me acostumei com isso há muito tempo. Efeitos de uma adolescência regada a filmes trash, como o grande clássico Braindead (Fome Animal), a trilogia Evil Dead (ah, saudoso Sam Raimi) e a série Hellraiser, que não é propriamente trash. Por sinal, pausa para falar de Hellraiser. É uma das minhas séries de terror favoritas. Aquele maldito cubo mágico e os Cenobites ainda povoam alguns dos meus mais escuros pesadelos. Provavelmente minha fobia de agulhas vem daí. “We have such sights to show you” deve ser uma das frases mais sádicas de todos os tempos. Mas vou parar por aqui. Hellraiser merece um post próprio. Voltando ao I Spit on Your Grave (algo como “eu cuspo na sua tumba”), faça um teste consigo mesmo antes de assistir. Se você foi uma daquelas pessoas que passou mal ou achou forte demais a cena de amputação em 127 Horas, nem chegue perto dele.

Esse filme da mulher de calcinha com a faca na mão é um remake do cult A Vingança de Jennifer (Day of the Woman), de 1978. A linha que ambos os filmes seguem é o gênero exploitation. Exploitation é um termo referido para filmes que tendem a abusar de determinada característica chamativa de público, seja sexo, violência,  cultura afro ou latina. O excepcional Machete é um exemplo. Esse gênero era bem comum nos anos 70 e hoje é o pai do bastardo torture porn. O que é torture porn? Simples, são filmes que usam e abusam de pessoas torturadas para o bel prazer do público. Seus maiores baluartes são a franquia Jogos Mortais (Saw) e O Albergue (Hostel). O filme é dividido em duas partes: crime e castigo. A primeira parte dele acompanha a escritora Jennifer (Sarah Butler, em uma atuação um pouco exagerada, mas aceitável). Ela, muito corajosa, aluga uma casa no meio do mato de uma cidade do interior do Estados Unidos.

O lugar é perfeito para crimes. De um lado você tem árvores e do outro... mais árvores. É o tipo de local em que serial killers devem ter plano fidelidade e cartão de membro. E daí segue a parte mais tensa de toda a história. Desde o começo você sabe que algo de ruim vai acontecer, só não sabe quando. Sons estranhos e câmeras em um estilo voyeur só ajudam a construir a tensão para o momento em que um grupo de jovens locais torturam e estupram seguidamente a indefesa garota. Nesse ponto o filme toma contornos sádicos na tentativa de criar ódio e raiva no público. Sem roupas e quase sem consciência depois de tantas agressões, a garota consegue fugir. E esse é o ponto mais surreal do roteiro, ela desaparece por alguns meses e “renasce” como uma mistura de Jason Voorhees e Jigsaw. Daí segue a segunda parte do filme: a vingança. Com uma guinada de estilo, somos apresentados a um slasher em que um a um vai morrer. Contudo, Jennifer não se contenta só em matar, ela tem que saborear a dor de cada uma de suas vítimas, assim como fizeram com ela. É o velho “olho por olho, dente por dente”, o apelo ao desejo de justiça retributiva presente no ser humano.

Como terror e suspense ele é muito competente, mas o seu apelo ao sadismo do espectador é o mais assustador. Como um filme de vingança, ele fica atrás de todos os grandes clássicos do gênero, como a trilogia de Chan-wook Park. I Spit on Your Grave, talvez, seja sobre a perda da humanidade, mas apenas talvez. O que há de mais humano do que fazer o mundo ao seu redor sofrer? A história da humanidade é escrita em dor, sangue e lágrimas. O ser humano é um câncer para o seu próprio mundo, seu próprio meio ambiente. Desde a expulsão de Adão e Eva do Edén que o homem foi condenado à dor e ao sofrimento. Desde o assassinato de Abel por Caim e a queda de Lúcifer que o homem aprendeu a causar dor e sofrimento. Sempre tenho a tendência de questionar quando alguém fala que matar ou ferir é desumano. Sempre achei risível, quase uma piada, a idéia de Direitos Humanos. Não, não sou pessimista, muito menos niilista. Um cínico? Talvez. Mas homens como Gandhi são exceção, o que me leva a crer que ser humano e ser bom são coisas completamente antagônicas. Voltaire afirmava que a História é uma série de crimes e desgraças e seu conterrâneo Paul Valéry concordava dizendo que ela nunca ensinou os homens a viver em paz, muito pelo contrário. Sempre fui fã de Samurai X. Quando Shishio morre, ele grita em alerta: “O Demônio é a verdadeira face das pessoas, o Inferno é a verdadeira face deste Mundo!”. Talvez I Spit on Your Grave seja um filme sobre o encontro da verdadeira face da humanidade. Talvez seja essa nossa sina: cuspir em tumbas. Talvez. Apenas talvez.



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